Traquinices e travessuras.

quinta-feira, setembro 02, 2004

Com papas na língua

O que me move para a escrita deste pequeno artigo é uma inquietação em relação a certas expressões de uso corrente na nossa língua. A expressão de que venho falar hoje é a original da frase que serve de título a este texto.
Recentemente, vi esta expressão num jornal local da cidade onde vivo, utilizada como título de uma rubrica de opinião, numa sôfrega, mas ambiciosa tentativa de nobilitar o carácter supostamente destemido e imperturbável de tal coluna e por extensão, do seu responsável. Sem papas na língua, o autor denunciava, despudoradamente e com assinalável contundência critica, a colocação indevida dos sinais de trânsito pela autarquia; sem papas na língua, manifestava-se furiosamente contra a terrível irregularidade da calçada nas ruas da cidade. E neste tom revolucionário, o audaz opinion-maker ia pondo em evidencia os tirânicos lobbys locais, como a intrigante escolha do artista Quim Barreiros para animar a noite de Carnaval da cidade. Sem papas na língua.
Posto isto, uma pergunta impunha-se na minha mente: “Que mal têm as papas?” eu cá adoro Nestum!
Provavelmente, esta expressão, profundamente injusta para o mundo das comidas passadas, nunca teria esta saída se as pessoas tivessem conhecimento que esse grande vulto da literatura e das artes plásticas, de seu nome Almada Negreiros, era um confesso consumidor de papas de aveia! Agora façam favor de me explicar o Manifesto anti-Dantas.
Sem contar com o facto de esta expressão idiomática ser flagrantemente discriminatória para toda uma franja da sociedade, que por uma razão ou por outra, se encontra tragicamente desprovida de dentição. Ou vocês acham razoável pôr um bebe de 6 meses, ou uma idosa de 96 anos a trincar uma costeleta de porco? Essas pessoas precisam das papas! Porquê que, em vez de “sem papas na língua”, não se diz antes “sem sopinha de massa na língua”? Também faz sentido! Ou será que as pessoas têm assim tanto medo do Carlos Carvalhas?
Todas estas questões trazem-me a outra expressão, diferente, mas com sentido idêntico e de natureza igualmente discriminatória e marginalizante. Estou a falar do “ quem fala assim não é gago”, usada habitualmente para enaltecer as virtudes oratórias e a tenacidade verbal de alguém. Ora, mais uma vez, temos o exemplo de uma enunciação que despreza cruelmente uma minoria do nosso país: os gagos. Assumir que uma retórica capaz e uma argumentação convincente são incomportáveis para o gago, é um equívoco de palmatória. Senão vejamos, quem não se lembra daquele excêntrico, mas profundamente eloquente e eficaz advogado da série americana “ Ally Mcbeal”? Ele era gago! E que dizer daquele intrépido participante do concurso da RTP1 “Quem quer ser milionário?”, também ele balbuciante, que conseguiu, há meses, a inverosímil proeza de manter, por mais de 2 gloriosos segundos, Jorge Gabriel calado, sem dizer baboseiras?
Parece-me que estas são questões que não devem continuar a ser escamoteadas, sob pena de acabarmos agrilhoados pelos constrangimentos da nossa própria língua. Urge, no âmbito daquilo que deve ser o espírito vivo e libertador deste blog, reflectir sobre estas problemáticas; e é nessa perspectiva de insubordinação, que escrevo este texto, literalmente, com papas na língua!