Traquinices e travessuras.

domingo, maio 30, 2004

Sobre a Champions...Reacção

Interessante a contribuição do nosso mais recente blogueiro sobre a vitória do FCP. No entanto, o seu discurso encerra certas incongruências que merecem um comentário da minha parte.
Em 1º lugar, não concordo que tenhamos precisado de 106 anos de existência para conseguir este e outros feitos. A construção da marca F.C. Porto enquanto a conhecemos actualmente, tem pouco mais de 20 anos. Como sabem, grande parte do palmarés que compõe a sala de troféus do FCP é fruto do trabalho realizado neste período recente, cuja responsabilidade é, evidentemente, desse grande líder e gestor que dá pelo nome de Pinto da Costa. Não tenho problemas em admitir que, até à chegada do actual presidente ao clube, o FCP era um clube regional, sem projecção internacional, cuja ambição não ia para além da luta pela emancipação nacional e pela libertação das amarras de um país futebolisticamente (e não só…) dominado por um regime despótico. Se hoje em dia, a centralização ao nível político e outros é evidente, imaginem o que não seria há 20 anos atrás, pior ainda durante o Estado Novo. Era, portanto normal que os clubes da capital dominassem a cena desportiva do país.
Por tudo isto, o feito presentemente alcançado pelo Porto foi conseguido, por mais do que uma vez e em vertentes inéditas em Portugal (Taça UEFA, Taça Intercontinental, Supertaça Europeia, Penta, Supertaças Cândido de Oliveira), no espaço temporal de 20 anos, fazendo com que toda a história precedente do clube, neste momento, façam parte de um passado longínquo que nada tem a ver com o actual estatuto de grande sucesso do clube. Por sua vez, os feitos indubitavelmente brilhantes outrora alcançados pelo Benfica, que levaram a que o clube fosse naquela altura chamado “Glorioso”, têm sido nas últimas duas décadas ensombrados por acontecimentos insólitos (Operações coração, Very Light, dívidas ao fisco, prisão de ex-dirigente, vazio de títulos, gestões ruinosas, goleadas sofridas) que fazem com que toda a “gloriosa” história precedente do clube, neste momento, façam parte de um passado longínquo que nada tem a ver com o actual estatuto do SLB. Temos, portanto, o caso de um clube em franca ascensão e em espectacular crescimento, e de outro, em deplorável decadência a nível desportivo, organizacional e financeiro. A meu ver, é aqui que se encontra a vergonha.
A referência às duas finais perdidas pelo Benfica parece-me reveladora da ambição dos adeptos encarnados. Nunca um Portista se iria referir com orgulho às finais perdidas, por exemplo, com a Juventus, em 1984, apesar de naquela altura termos sido prejudicados pela arbitragem. Nem nenhum Portista se orgulharia de atingir a final da Champions graças a um dos mais flagrantes escândalos da arbitragem de sempre. Falo da “mão de Vata”, que me parece bem mais grave que mil foras de jogo mal assinalados, situação que faz parte de qualquer partida de futebol e que não mereceu qualquer referencia da imprensa europeia, somente dos adeptos benfiquistas.
Depois há o tão popular argumento de os Portistas, em jogos em que o Benfica está ausente, cantarem músicas insultuosas para o SLB. Em 1º lugar, não confundam o meu amor pelo FCP com a minha visão sobre o adepto de futebol em geral, seja ele do Porto,do Benfica ou da Ovarense. O futebol é o desporto do povo e o povo nem sempre se caracteriza pela razoabilidade e bons modos. Não queiram saber o que vi e ouvi quando fui ver o Porto à Luz. Em 2º lugar, o uso de cachecóis e bandeiras por parte de adeptos benfiquistas, com conteúdos insultuosos para o FCP põe os Benfiquistas no mesmo saco dos Portistas, com a agravante de este ser um acto premeditado. Uma coisa é insultar da boca para fora, no ambiente quente do estádio, outra é imprimir esses insultos em peças de vestuário.
Quanto ao argumento do Benfica ser o clube do regime, agrada-me pelo menos a ideia de o F.C. Porto ter conseguido as suas maiores vitórias num contexto de liberdade e democracia. O mesmo não se poderá dizer do Benfica, cujas grandes vitórias serão sempre associadas a um tempo de enorme pobreza e opressão. Para alem disso, a centralização do governo fascista de Salazar na capital do país constitui reforço inequívoco para a carreira do Benfica, a nível doméstico e consequentemente internacional. Isso foi reconhecido em Espanha, com a situação idêntica do Real Madrid na era de Franco.
É desta forma que desmonto as ínsipidas considerações do meu caro ex-amigo Buz (Dr. o caralho)sem, contudo deixar de lhe dar as boas vindas ao nosso blogue.