Espaço infantil
Estreia-se uma nova rubrica aqui no Patroon.blogspot.com. Falo do novo espaço infantil, da minha autoria, ao qual dei o nome de Dah! Neste espaço, irei dar a conhecer as fábulas de La Fontaine, mas as verdadeiras! Sabem, é que a maior parte das pessoas têm uma imagem errónea deste autor. Reparem, ele não se limitou a traduzir e adaptar inocentemente as fábulas do escritor clássico Esopo. La Fontaine foi um libertino, as morais aparentemente consensuais das suas fábulas, para além de aliar o grotesco ao sublime, o cómico ao trágico, introduziram críticas subliminares fortes ao poder estabelecido, ao insurgir-se contra a guerra, contra a colonização, à escravatura. É La Fontaine quem introduz o conceito de ecologia.
A minha intenção aqui é mostrar-vos a versão censurada das fábulas, não escondendo o seu carácter subversivo. Estão prontos pequenada?
O rato da cidade e o rato do campo
O Sr. Rato da cidade foi um dia visitar o seu amigo Rato do campo, que o tinha convidado a passar uma tarde com ele. Habituado ao conforto da casa da cidade onde vivia, o Sr. Rato da cidade não gostou do buraco pobre, sem tapetes nem asseio, em que morava o seu amigo Rato do campo. Este, coitado, bem fez tudo para lhe agradar, mas o Rato da cidade mostrava-se cada vez mais enjoado com o que via. Ao jantar, o Rato do campo trouxe-lhe o que tinha de melhor: uns pedacinhos de queijo fresco, umas minis fora do prazo, uns couratos todos fodidos. Ofereceu tudo ao amigo e pôs-se a roer uma palha dura e a aproveitar as migalhas que caíam. Depois de comer, o Rato da cidade disse ao amigo, com ar importante, o filho da puta:
- Sabes que mais, caralho? Não sei como podes viver assim nesta merda. Não tens nada de comer, nem gajas. Eu, no teu lugar, mandava foder esta miséria e ia para a cidade. Lá tá cheio de putas e vinho. Lá é que é uma vida do caralho!
O raios te foda do Rato do campo, encaralhado com a sua pobreza e seduzido com a possibilidade de comer pito na cidade, partiu com o seu amigo Rato. Quando lá chegou e entrou na casa onde o Rato da cidade tinha a sua toca, ficou admirado com a riqueza que via. Por toda a parte havia ratas e boa comida com fartura. Felicíssimo, o Rato do campo regalou-se a comer do melhor que encontrava, e o outro ria-se de o ver tão palerma no meio daquelas ratas todas. Pelo meio da festa, o Ratinho do campo conheceu a irmã do seu amigo, a Ratinha peluda.
- Olá, o meu nome é Ratinha peluda. Disse a Ratinha peluda. Queres mexer-me no pelinho? É muito fofo. E o Ratinho do campo assim fez. Estavam os dois no melhor da festa, a comer e a beber, quando aparece um grande gato, que se atira a eles de um pulo. O da casa depressa enfiou para o seu buraco e fugiu ao gato. Mas o do campo, coitadinho! Aos saltos e às corridas, sem conhecer a casa, lá se tentou esconder do gato como pode, mas sem sorte. Agora era a vez do gato se consolar, ele que já não comia há 15 dias. Comeu de todas as partes um bocadinho, enquanto o pobre rato gritava de dor. Saciada a fome do gato, o Rato da cidade saiu do seu esconderijo e foi falar com o outro.
- Foste comido à grande, não? Disse o Rato do campo.
- Ò moço, tu nem digas nada, que ainda estou aqui à rasca. Respondeu o Ratinho do campo. Isto não é vida para mim. Pode ser muito bonito e muito bom, melhor que a minha casa pobrezinha, mas é perigoso. Lá na minha casa como quando aparece alguma coisa, mas ao menos estou descansado. Passa muito bem, que eu contento-me com o que tenho. Tenho lá em casa 5 amigos que nunca me deixam ficar mal. Isso e umas cassetes de vídeo. Antes virgenzinho no mato do que enrabado pela piça do gato. Disse o Ratinho do campo, no seu jeito carinhoso. E voltou a correr para casa com o cuzinho a sangrar.

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