O valor do dinheiro
Gosto de defender o indefensável. Eu próprio aliás, sou de certa forma indefensável. Disléxico, idiota, irritante, incoerente. Mas acho que devo ser assim pois já há tantas pessoas em condições. Para quê ser igual aos outros? Para isso já estão eles (os outros) neste mundo.
O que venho hoje defender é uma teoria com a qual muitos discordam, e continuarão a discordar. Trata-se do valor do dinheiro. O dinheiro, como sabem, é o elemento que vos escraviza, que vos mortifica. Por ele, milhões de pessoas deixaram as suas aldeias, as suas cidades, os seus países, os seus continentes. Estou convencido que se o salário mínimo de Plutão fosse de 250contos, já aquilo estaria cheio de terráqueos, muitos deles portugueses, a assentar tijolo e a chapar massa. Mas o que interessa é ganhar a vida, mesmo que depois a mortificação seja tal que já não se tenha inteligência suficiente para saber como gastar o dinheiro. Mas adiante.
A tal teoria impossível com a qual ides discordar é a seguinte: o dinheiro não tem valor. É isso mesmo, não tem valor. Façam este exercício comigo: o que é que vocês fazem com uma pessoa que tenha valor para vocês, que vocês amem? Trocam-na por uns ténis da Nike? Por uma saca de Mariazinhas? Se forem normais, não. As pessoas que vocês amam, querem ficar com elas e nunca as perder. Mas não é preciso recorrer às pessoas como exemplos. Com os bens materiais também faz sentido. Todos nós temos objectos dos quais gostamos. Queremos trocá-los? Não. Queremos ficar com eles. Porquê? Porque têm valor para nós. Agora vamos analisar o caso do dinheiro. Depois de receberem o salário ou a mesada, ou uma bolsa, o primeiro pensamento das pessoas qual é? Darem o dinheiro, ou melhor, trocá-lo. Mesmo quando nos esforçamos por o guardar, arranjamos sempre maneira de nos livrarmos dele. Quando olhamos para as notas e moedas, os nossos olhos brilham não por ele, mas pelos objectos que podemos vir a ter se o trocarmos. A própria definição de dinheiro prova isso: é uma moeda de troca. Ora, uma moeda de troca é algo secundário, que simplesmente serve para adquirir outra coisa e que, portanto, não tem valor para nós.
Mas agora, a maior parte de vós exclamará certamente: então se o dinheiro não tem valor experimenta viver sem ele! Eu consigo, mas não nesta sociedade. Quem conhece África, pela televisão, pelos livros, ou por lá ter estado, confirmará que não há povo que despreze tanto o dinheiro como eles. São gajos para gastar o ordenado todo na primeira semana do mês. E os que vivem mesmo mal, cheios de Sida e com o alfabeto todo de hepatite, não querem dinheiro. Querem água ou comida, ou um colchão para dormir, ou quatro paredes para se abrigarem, ou simplesmente saúde ou até companhia, porque esses é que são os verdadeiros valores deste mundo. Se eles tivessem dinheiro, quereriam imediatamente trocá-lo por uma destas coisa que referi. E seriam bem capazes de dar 500 € por uma bolacha, se tivessem 500 €. Porque eles já perceberam que o dinheiro não tem valor. Quando iremos nós percebê-lo também?
Para quem ainda não percebeu o que quero dizer com tudo isto, deixo-vos com este provérbio Amero-índio: Só quando a última árvore tiver morrido e o último rio secado havemos de perceber que não podemos comer dinheiro.

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11:16 p.m.
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