Traquinices e travessuras.

terça-feira, janeiro 25, 2005

Obrigado Tuelo...!

Acreditem, acreditem porque o que eu digo é a pura e simples verdade…
Graças aos comments do nosso amigo Tuelo vi renascer em mim algo que pensava perdido desde os meus tempos áureos de estudante universitário… Sim… Aquela ânsia selvagem e incontrolável de partir no desconhecido, enveredando por caminhos sinuosos na busca por algo que não se encontrava na minha natureza, habitat, quiçá no meu ecossistema social…
E lá fui eu… após tantas sugestões literárias para aprofundar a minha cultura literária, possivelmente também para desenvolver… pesquisar em busca da Maria, Ana, Gina (mas afinal onde é que estão estas gajas) e não é que encontrei…
Bastou apenas uma, para rapidamente detectar o seu elevado nível cultural, que certamente foi o motivo pelo qual me foram impingidas… desta pude imaginar o nível criativo e didáctico das restantes…

Produzida pelos incansáveis criativos das Edições Pirâmide, da Buraca, a lendária Revista Gina é uma instituição que parece manter-se em grande forma. O número 3 da mítica publicação pornográfica mereceu a minha atenção e análise, sendo necessário o meu empenho imaginativo para interiorizar tais padrões de cultura moderna, que certamente são a verdadeira razão pela qual esta publicação faz parte do imaginário de tanto e tanto rapazinho de tenra idade… (tempo este em que julgávamos ou julgamos que as verdadeiras mulheres diziam mesmo aquelas coisas) … porque para ser sincero ainda não encontrei nenhuma que usasse expressões verbais como «arrebenta» …

Voltando novamente ao magistral número 3 da tão afamada Revista Gina, este continha, algo que deve ser considerado como um clássico dentro dos clássicos deste nível literário tão elevado culturalmente, a fascinante saga de uma polícia de trânsito e de um condutor com carro mal estacionado.
Há uma transição entre duas fotografias (que deve ser o que realmente fascina todos aqueles que não sabem ler ou escrever…) que me encantou sobremaneira. Numa, Frank (o condutor com carro mal estacionado) consegue convencer a polícia Jenny – e reparem como isto é realista – a tomar um copo com ele, dentro do carro. Frank diz o seguinte:

«À saúde, pequena. Eu chamo-me Frank, e tu?»

Ao que Jenny responde: «Chamo-me Jenny. À saúde, Frank.»

O que acontece na fotografia seguinte? Continuando a onda de veracidade e realismo, a polícia Jenny já está na fotografia seguinte com a mão na braguilha de Frank. E a sair da boca de Frank há um daqueles balões tipo BD (esta sim uma leitura bem mais difícil de assimilar pois contém muitas palavras) onde se pode ler:

«Essa agora, isto é que é rapidez!»

Ou seja, o tipo está tão ou mais espantado que o próprio leitor. Adoro este pós-modernismo pornográfico. É quase como se o protagonista estivesse perto de dizer: «Bolas, isto até parece a Revista Gina.»
Há outros excertos dignos de nota e que provam que esta (pelo menos) edição da Fantástica Revista Gina é muitíssimo, e volto a repetir, muitíssimo literária porque nunca dois protagonistas de uma história pornográfica (e eu não tenho medo de afirmar que vejo alguma pornografia) falaram TANTO. Fala-se MUITO nesta história. Eles não se calam um bocadinho. Há uma parte em o narrador diz:

«Quando Jenny venceu a timidez inicial, tornou-se lasciva, como se não tivesse tido homem há muito tempo».

Depois sucede-se a seguinte conversa entre Jenny e Frank…

«Jenny, tu és maravilhosa. Anda, tira esses trapos engomados. Eu quero tanto ver-te nua para acariciar e beijar as tuas mamas.»

Sim, eles falam MUITO. A Jenny diz, enquanto Frank lhe tira a farda policial, o seguinte: «Tem cuidado, se continuas tão impetuoso ainda me rasgas a camisa.»

E diz o Frank: «Desmancha o penteado, Jenny. Dá-te um ar muito severo e pesado.»

E Jenny, em vez de desmanchar o penteado e ficar calada, ou, na melhor das hipóteses, gemer… CONTINUA A FALAR! A páginas 9 da Revista Gina número 3, Jenny diz: «Mas é que eu tenho de usar o cabelo assim quando estou de serviço, não é que eu goste muito.»

NÃO SE CALAM. Páginas e páginas em que as fotografias os mostram já em grande acção, mas o texto insiste em que continuem a dizer parvoíces. O próprio narrador junta-se ao coro de parvoíces quando diz, a páginas 11: «E agora Frank amimalhava o corpo de Jenny com beijos excitantes.»
AMIMALHAR. Cá está um verbo que hoje em dia não aparece muito na pornografia (e volto a repetir que não tenho medo de afirmar que vejo alguma pornografia) e com muita pena minha. Já se imaginaram num cantinho carinhoso com uma babe e dizerem algo como: «Querida amimalha-me o ser.» é para elas ficarem loucas de certeza…

A certa altura, e novamente numa dinâmica de falar, falar, falar, falar, Jenny diz: «Gostei mais da outra maneira, Frank, espera aí um momento, eu prefiro virar-me novamente.»

É a mesma Jenny que, páginas mais à frente, exclama: «Segura-me bem, Frank, que eu não quero cair do banco.»

E ainda… (até pareço e Teresa Guilherme no 1,2,3)

«Oh, não sejas tão violento, Frank, tão rápido, não amor, estás a ser muito violento.»

Ou seja, mais um bocadinho e ela iria acrescentar qualquer coisa como: «É que eu tenho um problema aqui na coluna, Frank e, como tal, tenho isto tudo apanhado.» lol

Mais á frente houve uma coisa que me irritou, pela falta de lógica da história. Sim, porque rapidamente fiquei fascinado e me passei a preocupar com a lógica interna de histórias como esta que aparece e revistas tão culturais e didácticas como a Revista Gina.
Eles estão a fazer O AMOR dentro do carro do Frank, que ela acabou de conhecer. No entanto, a narração diz: «Jenny levantou-se e puxou a mala que estava dentro do assento. Depressa encontrou o que procurava: um frasco de vaselina.»
Ora o que faz com que uma mulher-polícia saiba que um estranho tem no carro uma mala com um frasco de vaselina?
É assim uma coisa tão normal?
Alguém aqui tem frascos de vaselina nos vossos carros? É uma coisa assim tão aceitável pela sociedade? (ou fará apenas parte da sociedade dos MACHOS, MUITO MACHOS?)
Ou será que dá multa não ter…?

Isto sim é cultura literária… OBRIGADO AO NOSSO AMIGO TUELO…
Se não fosses tu continuava um inculto…

2 Comments:

Blogger João Paz said...

Piçarrinha, obrigado pelo pedacinho de céu que aqui nos deixaste!

10:32 a.m.

 
Blogger Lip said...

Parabéns,Piçarra,conseguiste finalmente escrever um grande post.Dos melhores dos ultimos tempos aqui no Patroon.com

4:44 p.m.

 

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